🔍 Artigo cocriado com Ricardo Vázquez, Gerente de Fábrica na Trelleborg México (🇲🇽 México), e Augusto Unzaga, host do Keru Podcast.
🎙️ Este artigo foi inspirado no Episódio 31 do Keru Podcast.
Keru Podcast, criado pela Globalita.io, é uma série de conversas (em espanhol) com líderes industriais da América Latina sobre gestão, tecnologia e tomada de decisões em ambientes complexos.
A liderança como gargalo silencioso
Em indústrias como a automotiva e a de plásticos técnicos, os processos são tão exigentes que qualquer erro custa caro. No entanto, em muitas fábricas, os erros não vêm da linha nem da máquina. Vêm da demora nas decisões.
“Se o supervisor espera que eu valide tudo, já perdemos velocidade”, afirma Ricardo Vázquez México, que lidera a operação da Trelleborg México com um olhar centrado na agilidade real.
Aqui não se fala de agilidade como discurso, mas como prática diária: responder ao cliente, ajustar com o fornecedor, liberar ordens, corrigir desvios… sem passar cada etapa pela diretoria geral.
Trelleborg Ricardo Vázquez: empoderar sem improvisar
Um dos erros comuns ao tentar descentralizar decisões é delegar sem estrutura. Por isso, na Trelleborg México, a mudança começou pelo meio: fortalecer as lideranças intermediárias.
“Um líder que não forma seus supervisores se torna um gargalo operacional.”
Como resolveram?
- Definindo claramente quem decide o quê em cada nível.
- Treinando com simulações de decisões críticas.
- Aplicando a matriz de impacto–urgência para priorizar ações no chão de fábrica.
- Usando quadros visuais para que cada líder saiba qual variável deve observar.
Esse modelo reduz atritos, dá velocidade e diminui erros derivados da dependência constante.
Modelos de liderança industrial aplicados à mudança
Em vez de pensar a liderança como estilo pessoal, trabalhou-se com modelos de liderança industrial que já demonstraram eficácia em contextos semelhantes. Alguns princípios-chave implementados na fábrica:
- Gemba Walks planejados: a diretoria desce ao chão de fábrica, mas com uma pauta clara.
- Liderança tipo “Obeya”: reuniões breves, todos de pé, com dados visíveis e foco em decisões.
- Formação Kaizen: cada líder tem uma rotina de melhoria sob sua responsabilidade.
- Revisão cruzada de desempenho: as equipes opinam sobre a eficácia da liderança técnica, e não apenas o chefe.
Essas práticas se integram ao dia a dia, não como “projetos paralelos”, mas como parte do fluxo de trabalho.
Liderar sem estar em tudo: a verdadeira mudança na fábrica
A mudança de cultura organizacional na Trelleborg México não aconteceu de um dia para o outro. Tampouco foi impulsionada a partir de um PowerPoint. Foi forjada na fábrica, no ritmo real do dia a dia, em que os turnos se sobrepõem, os pedidos dobram e os problemas chegam sem aviso.
Ricardo Vázquez México resume sem rodeios:
“Se eu tenho que estar em todas as decisões, então não tenho líderes… tenho assistentes.”
Esse pensamento foi o ponto de partida para construir um modelo que combina velocidade com controle. Não se trata de liderar a partir do caos nem de soltar o leme, mas de construir um sistema operacional robusto de liderança intermediária, que libere a diretoria para olhar mais longe.
1. A matriz de decisões: quem decide o quê (e quando)
Uma das ferramentas-chave implementadas foi uma matriz de decisão operacional, inspirada no modelo de Accountability Chart do EOS (Entrepreneurial Operating System), adaptada ao ambiente de fábrica.
Essa matriz estabelece com clareza:
- Que tipo de decisão corresponde a qual nível.
- Que informação é necessária para tomá-la.
- Qual é o tempo máximo de resposta.
Exemplo:
- Uma troca de fornecedor requer validação técnica e gerencial.
- Um ajuste de parâmetros de máquina pode ser decidido pelo chefe de turno, se certas condições forem cumpridas.
- Uma reprogramação da produção pode ser autorizada pela área de planejamento com visibilidade do backlog.
Resultado: mais agilidade, menos gargalos.
2. Visualizar para agir: gestão de fábrica com abordagem Lean
Seguindo os princípios do Lean Management, foram implementados quadros visuais em cada área crítica. Neles se integram indicadores, tarefas do dia e alertas.
Algumas práticas aplicadas:
- Matriz de impacto/esforço diária para decidir quais problemas atacar.
- Painéis Andon com foco em paradas, causas e tempo de resolução.
- Códigos de cores para definir a prioridade das ordens.
- Reuniões de 15 minutos, 3 vezes por dia, com foco em ação imediata.
“Não é mostrar números. É tomar decisões com esses números. Esse é o papel do líder.”
3. Formação cruzada: cada técnico, um líder em potencial
Um dos eixos mais fortes de transformação na Trelleborg Ricardo Vázquez foi redefinir a figura do técnico. Em vez de serem apenas executores, eles foram preparados para:
- Entender variáveis críticas de processo.
- Tomar decisões na ausência de supervisão.
- Liderar rotinas de manutenção preventiva.
- Participar de comitês de melhoria contínua.
Isso foi alcançado com um plano de formação baseado na metodologia TWI (Training Within Industry), adaptado ao contexto da fábrica:
- Instruções estruturadas passo a passo.
- Treinamento em soft skills para comunicar e escalar desvios.
- Avaliações práticas a cada 60 dias.
“Não preciso que todos sejam engenheiros, mas sim que todos entendam o impacto do que fazem.”
4. Delegar sem se desconectar: o papel da diretoria
Delegar não significa se desinteressar. Por isso, o modelo de liderança na Trelleborg México Ricardo Vázquez incorpora o que chamam de liderança de revisão:
- Toda semana, os líderes apresentam não só resultados, mas as decisões tomadas e seus fundamentos.
- São usadas ferramentas de reflexão como os 5 Porquês e o Ciclo PDCA (Plan–Do–Check–Act).
- São analisados casos em que se agiu bem… e em que se agiu mal.
Essa prática reforça a autonomia, mas com aprendizado coletivo.
5. Quando o ritmo aperta: sustentar a liderança em picos de pressão
Um dos maiores desafios para manter modelos de liderança industrial surge quando a pressão operacional aumenta: prazos, escassez de materiais, absenteísmo.
É aí que o sistema mostra se funciona.
Na Trelleborg, eles se preparam para isso com:
- Simulados de contingência.
- Funções de backup já treinadas.
- Protocolos de decisão rápida.
- Limites preestabelecidos para desvios toleráveis.
Isso permite sustentar a tomada de decisões em ambientes produtivos sem cair na improvisação nem na dependência excessiva do gerente.
6. O que um gerente industrial pode aplicar amanhã?
Se você lidera uma fábrica e quer avançar para um modelo de liderança mais ágil e eficiente, estes são alguns passos aplicáveis a partir de amanhã:
🔹 Matriz de decisões por nível
Defina quem decide o quê. Elimine as zonas cinzentas. Formalize.
🔹 Quadro visual simples por área
Que todos saibam o que olhar, com que frequência e o que fazer se algo se desviar.
🔹 Ronda Gemba com propósito
Não caminhe por caminhar. Faça perguntas-chave, anote descobertas, defina ações.
🔹 Identifique e forme líderes latentes
Quem na sua equipe pode assumir mais? O que essa pessoa precisa para isso?
🔹 Simule pressão
Prepare a equipe para decidir sob estresse, não só em ambientes ideais.
Reflexão final
A liderança industrial não é uma questão de carisma nem de estar em todos os lugares. É uma questão de sistema. De criar condições em que outros possam decidir bem, rápido e com critério técnico.
“O pior que pode acontecer a um líder é que tudo dependa dele.”
Na Trelleborg México, Ricardo Vázquez México entendeu que a liderança eficaz não é ter todas as respostas, mas formar equipes capazes de responder sozinhas quando for necessário.
E você, como gerente:
Está construindo um sistema… ou acumulando dependência?
🔁 Keru é um podcast criado pela Globalita.io, em que conversamos com quem lidera a indústria latino-americana por dentro.
Ricardo Vázquez é Gerente de Fábrica na Trelleborg México, com mais de 20 anos de experiência na indústria automotiva e de plásticos técnicos. Ao longo de sua trajetória, liderou processos de produção, melhoria contínua, qualidade e liderança de equipes multiculturais em ambientes altamente regulados. Sua abordagem está centrada no desenvolvimento das lideranças intermediárias, na eficiência da fábrica sob pressão e na implementação de modelos de liderança ágeis em operações críticas. Antes da Trelleborg, ocupou posições-chave em empresas como Hutchinson e Bridgestone. Seu perfil combina o conhecimento técnico de processos com a capacidade de formar estruturas de decisão rápidas e confiáveis, adaptadas aos desafios do setor industrial no México.
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