Amtex Corp Colombia: recuperar subprodutos, a oportunidade oculta no que você joga fora

Na maioria das fábricas industriais, o foco está no produto final. O que sai bem. O que o cliente quer. Mas raramente se analisa com a mesma atenção o que se perde: resíduos,…

Ricardo Xavier de Oliveira Gerente de Produção · Amtex Corp · · 6 min
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🔍 Artigo cocriado com Ricardo Xavier de Oliveira, Diretor de Operações na Amtex Corp Colombia (🇨🇴 Colômbia), e Augusto Unzaga, host do Keru Podcast.
🎙️ Este artigo foi inspirado no Episódio 31 do Keru Podcast.
O Keru Podcast, criado pela Globalita.io, é uma série de conversas (em espanhol) com líderes industriais da América Latina sobre gestão, tecnologia e tomada de decisões em ambientes complexos.

Quanta rentabilidade você está jogando no lixo?

Na maioria das fábricas industriais, o foco está no produto final. O que sai bem. O que o cliente quer. Mas raramente se analisa com a mesma atenção o que se perde: resíduos, subprodutos não valorizados, calor desperdiçado, materiais não separados.

“O resíduo mais caro não é o que custa muito tratar. É o que você poderia vender e não sabe”, afirma Ricardo Xavier de Oliveira, Colômbia.

Essa afirmação expõe um paradoxo na gestão industrial: cada fábrica está cheia de pequenas fontes de receita ocultas. Mas, como não aparecem no painel de controle, não são exploradas. Em um contexto de pressão por rentabilidade e sustentabilidade, esse é um luxo que já não se pode permitir.

Recuperação de subprodutos industriais: o potencial ignorado

O conceito de recuperação de subprodutos industriais não é novo. Mas continua sendo pouco aplicado, especialmente em fábricas de médio porte ou com estruturas operacionais herdadas. Muitas vezes é considerado um “plus”, quando na realidade pode se tornar uma nova unidade de negócio.

O que se pode recuperar?

  • Vapores ou condensados térmicos reutilizáveis em outras etapas do processo.
  • Proteínas, fibras ou sólidos que hoje são jogados no efluente.
  • Subprodutos químicos que podem ser insumo para terceiros.
  • Resíduos energéticos que podem alimentar caldeiras ou biodigestores.

O primeiro passo é mudar o olhar: de resíduo a recurso. E isso não se consegue com intenções, mas com método.

Economia circular industrial: não é uma moda, é um modelo operacional

A economia circular industrial propõe justamente essa virada: desenhar sistemas produtivos em que todo resíduo seja input para outro processo. Não como discurso verde, mas como lógica operacional.

Em setores como alimentos, química ou papel, isso já é aplicado com resultados mensuráveis: vendas paralelas, redução de custos de descarte, melhoria da pegada ambiental e novos contratos com clientes que valorizam a circularidade.

Mas, para que funcione, é necessária uma estrutura que permita:

  • Medir os fluxos de materiais de ponta a ponta.
  • Detectar pontos de fuga de valor.
  • Desenhar processos de separação, secagem ou tratamento sem afetar a operação principal.
  • Justificar investimentos com casos de negócio claros.

De perda oculta a unidade de negócio: como recuperar subprodutos com lógica industrial

A recuperação de subprodutos industriais não deveria ser uma ideia verde nem um projeto de RSE. É — cada vez mais — uma decisão estratégica de eficiência operacional.

Como bem aponta Ricardo Xavier de Oliveira, Colômbia:

“O que sai pelo encanamento também tem custo… e muitas vezes, valor.”

Para capturar esse valor, as empresas precisam deixar de ver os resíduos como externalidades e começar a medi-los como o que são: fontes potenciais de receita, eficiência ou energia.

Mas por onde começar?

1. Análise de Material Flow: olhar além do produto

A ferramenta-chave para iniciar esse processo é a Análise de Material Flow (Material Flow Analysis, MFA). Seu propósito é traçar o percurso completo dos materiais, não apenas do produto final, mas também do que se perde, se mistura, evapora ou é descartado.

Aplicada a uma linha de produção, uma MFA permite:

  • Quantificar entradas vs. saídas reais (incluindo perdas não registradas).
  • Visualizar em que etapa se gera o maior scrap ou subproduto.
  • Detectar potenciais insumos secundários (para vender, reutilizar ou trocar).
  • Identificar ineficiências energéticas ou térmicas.

Esse método permite passar do “acho que desperdiçamos” ao “sabemos onde e quanto”.

2. Recuperar com propósito: vale a pena investir?

Nem todo subproduto é negócio. Por isso, depois da análise técnica, vem o passo-chave: construir um business case com ROI claro.

Isso implica responder perguntas como:

  • Que volume é gerado por mês?
  • Tem valor de mercado ou pode substituir outro insumo?
  • Qual é o custo de processá-lo ou separá-lo?
  • Que equipamentos precisaríamos (centrífugas, evaporadores, prensagem etc.)?
  • Em quanto tempo o investimento é recuperado?

Uma simples matriz impacto–esforço pode priorizar os subprodutos mais valiosos com menor complexidade técnica.

Além disso, usar o enfoque DMAIC (Define, Measure, Analyze, Improve, Control) do Six Sigma permite padronizar cada etapa do projeto de recuperação.

“Se você não pode medir, não pode justificar. E se não pode justificar, ninguém vai aprovar.”

3. Casos típicos em que a recuperação gera valor imediato

Estes são alguns cenários em que a recuperação de subprodutos industriais pode ter impacto imediato:

  • Indústrias alimentícias: proteínas animais, óleos usados, bagaço vegetal.
  • Químicas e farmacêuticas: resíduos líquidos tratáveis, solventes recuperáveis, sais.
  • Papel e celulose: lodos, fibras, águas brancas.
  • Metalmecânicas: cavacos metálicos com lubrificantes, restos de corte.
  • Plásticos: scrap reutilizável, pó de moagem, purgas.

Em todos os casos, o foco não deve ser apenas ambiental, mas financeiro e produtivo: mais receita, menos custo, menos risco.

4. Integrar a recuperação à operação diária

Um dos motivos pelos quais essas iniciativas fracassam é que são geridas como projetos paralelos. Para que funcionem, devem estar integradas à lógica operacional.

Isso implica:

  • Incluir indicadores de recuperação nos KPIs da fábrica.
  • Capacitar os operadores para detectar oportunidades (com princípios de Kaizen diário).
  • Estabelecer responsáveis e rotinas de melhoria sobre os fluxos secundários.
  • Definir espaços físicos e logísticos para armazenar, separar ou vender subprodutos.
  • Aplicar Poka Yoke para evitar que materiais recuperáveis se misturem com resíduos reais.

5. Alavancar a economia circular industrial como vantagem competitiva

Além da economia direta, muitas empresas estão usando a economia circular industrial como argumento comercial. Alguns benefícios:

  • Acesso a novos clientes que exigem certificações verdes.
  • Vantagem em licitações públicas ou com grandes corporações com políticas ESG.
  • Redução da pegada de carbono reportada.
  • Geração de receitas paralelas com a venda de subprodutos.
  • Diminuição do custo e do volume de descarte final.

Esse enfoque, além de operacional, pode se transformar em uma vantagem de posicionamento estratégico.

6. O que você pode aplicar amanhã na sua fábrica?

🔹 Faça um mapa básico de Material Flow em uma linha-chave
Inclua entrada de matéria-prima, processo, scrap, água, vapor, energia.

🔹 Priorize subprodutos por volume e valor estimado
Nem tudo se recupera. Escolha 1 ou 2 com bom equilíbrio impacto/esforço.

🔹 Calcule o custo mensal de tratar esse resíduo
E compare-o com o custo de investir em uma solução para reutilizá-lo ou vendê-lo.

🔹 Verifique se outro fornecedor ou empresa poderia precisar dele como insumo
Não subestime o valor do resíduo em outros processos industriais.

🔹 Envolva a equipe técnica e de manutenção
São eles que melhor conhecem os “vazamentos invisíveis” que valem dinheiro.

Reflexão final

A recuperação de subprodutos industriais não é apenas uma boa prática ambiental. É uma forma concreta de aumentar a rentabilidade sem crescer em volume.

Ricardo Xavier de Oliveira, da Amtex Corp Colombia, resume com clareza:

“Nem sempre você precisa produzir mais. Às vezes, só precisa parar de jogar fora o que já produz.”

E você, como gerente:

Está medindo o que vai pelo encanamento? Ou está deixando dinheiro no lixo?

🔁 O Keru é um podcast criado pela Globalita.io, onde conversamos com quem lidera a indústria latino-americana por dentro.

Sobre Ricardo Xavier de Oliveira

Ricardo Xavier de Oliveira é Diretor de Operações na Amtex Corp Colombia, com mais de 30 anos de experiência nas indústrias química, alimentícia e de agronegócios. Especialista em melhoria contínua, qualidade, segurança de processos e recuperação de subprodutos industriais, liderou projetos de eficiência energética, redução de scrap e aumento de OEE. Possui certificações em Lean Six Sigma (Black Belt), auditoria ISO e gestão industrial. Sua trajetória inclui a liderança de start-ups de fábrica, a otimização de processos químicos complexos e a gestão integral da cadeia de manufatura, sempre com foco em resultados sustentáveis e transformação operacional.

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