🔍 Artigo cocriado com Josep Berga, Diretor Industrial da Alzamora Group Espanha (🇪🇸 Espanha), e Augusto Unzaga, host do Keru Podcast.
🎙️ Este artigo foi inspirado no Episódio 30 do Keru Podcast.
O Keru Podcast, criado pela Globalita.io, é uma série de conversas (em espanhol) com líderes industriais da América Latina sobre gestão, tecnologia e tomada de decisões em ambientes complexos.
O desafio de produzir sem catálogo fixo
Em muitas fábricas industriais, planejar significa prever. Mas em outras, como a Alzamora Group Espanha, planejar significa adaptar-se em tempo real. Seu diretor industrial, Josep M. Berga Ferrés Alzamora Group, opera em um ambiente em que o portfólio muda toda semana. As linhas não repetem formulações. As prioridades variam por lote, cliente, volume ou urgência comercial. E, ainda assim, a operação não pode parar.
“70% do que produzimos este mês provavelmente não vamos repetir no mês que vem. E isso é normal.”
Essa afirmação resume a complexidade da gestão industrial com alta rotatividade de produtos. Não se trata apenas de programar turnos ou reservar materiais: trata-se de manter uma lógica produtiva fluida quando a demanda não é estável e o produto muda o tempo todo. Nesse contexto, o planejamento operacional em ambientes variáveis não é uma ferramenta auxiliar, mas o coração do negócio.
A equipe de Berga precisou desenvolver sistemas que combinam agilidade, controle e coordenação constante com áreas como design, comercial, suprimentos e chão de fábrica. A chave está em antecipar sem pretender controlar tudo. O plano de produção é um acordo flexível, não um documento fixo.
“Nosso sistema tem que ser robusto o suficiente para absorver mudanças. Se não for, a mudança nos quebra.”
Adaptabilidade operacional: desenhar sistemas que aguentam a mudança
Em indústrias em que o produto é estável, o sistema aprende pela repetição. Mas em contextos como o da Alzamora Group Espanha, em que a personalização é constante, a repetição desaparece e, com ela, as receitas tradicionais de eficiência. Em seu lugar, surge outra habilidade: desenhar sistemas que possam mudar sem quebrar.
Josep M. Berga Ferrés Espanha diz isso sem rodeios:
“A eficiência vem depois. Primeiro, é preciso conseguir que o sistema não caia toda vez que entra um pedido novo.”
Essa abordagem é a essência do planejamento operacional em ambientes variáveis. Não se trata apenas de prever volumes, mas de organizar os recursos, as pessoas e a tecnologia para responder com flexibilidade estrutural a um portfólio que se reinventa o tempo todo.
Do plano mestre ao S&OP dinâmico
Na maioria das empresas industriais, o plano mestre é revisado mensalmente. Na Alzamora Group Espanha, o plano é revisado toda semana… e ajustado todos os dias. A área de planejamento trabalha em modo espelho com comercial, suprimentos e produção, usando um sistema de coordenação tática que aproveita o melhor do Sales and Operations Planning (S&OP) e o adapta a ciclos curtos.
“Não usamos o S&OP para estabilizar, mas para navegar a mudança.”
O ciclo inclui:
- Reuniões semanais cruzadas para identificar mudanças em pedidos, capacidades ou prioridades.
- Semáforos de estresse por linha e tipo de produto (urgente, variável, estável).
- Protocolos de reação rápida caso o cliente modifique especificações depois do fechamento dos pedidos.
Essa dinâmica permite responder sem atrito às variações do portfólio, antecipando impactos operacionais antes que afetem a fábrica.
Essa abordagem se alinha a práticas de Lean flexível, em que a padronização rígida é substituída por uma padronização adaptável: processos definidos, mas preparados para variações.
Buffers cognitivos: um novo tipo de estoque
Quando a variabilidade do produto é alta, o estoque físico não basta. É preciso algo mais difícil de quantificar: conhecimento antecipado. Na Alzamora, isso se traduz no que Berga chama de buffers cognitivos: ferramentas e práticas que preparam a organização para responder antes que seja necessário agir.
Alguns exemplos concretos:
- Pré-configurações de máquina para os tipos de pedido mais comuns, com parâmetros já validados.
- Bibliotecas de design técnico que permitem recuperar moldes ou especificações rapidamente.
- Capacitação cruzada do pessoal, para que as trocas de formato não impliquem parar para retreinamento.
“Se o seu sistema precisa aprender tudo do zero toda semana, você não tem sistema.”
Esses buffers são invisíveis para o ERP, mas fundamentais na gestão industrial com alta rotatividade de produtos. Permitem reduzir o tempo de adaptação e aumentar a resposta efetiva diante de produtos novos ou reconfigurados.
SMED como norma, não como projeto
Em indústrias de mudança constante, o setup é o calcanhar de Aquiles. Por isso, Josep M. Berga Ferrés Alzamora Group decidiu aplicar o método SMED (Single-Minute Exchange of Die) como princípio organizacional, e não como projeto de melhoria isolado.
“Reduzir tempos de troca não é uma melhoria. É uma condição para operar.”
Cada nova referência de produto é analisada com abordagem SMED desde a sua entrada:
- O que pode ser preparado antes da troca?
- Quais ferramentas precisam de padronização?
- Qual formato anterior pode servir de base?
- Quais indicadores de setup serão medidos?
O resultado: um processo de troca rápida, com impacto direto na capacidade de resposta do sistema. Em algumas linhas, conseguiu-se reduzir o tempo de troca em mais de 60%, sem necessidade de investimento, apenas redesenhando as etapas e treinando a equipe.
Isso não só melhora o OEE (Overall Equipment Effectiveness), como protege a promessa de entrega ao cliente, mesmo quando há três lançamentos novos na mesma semana.
Liderança distribuída: a base do TWI operacional
Trocar produtos não significa apenas ajustar máquinas. Significa ajustar pessoas. Nesse ponto, Josep M. Berga Ferrés Espanha implementou um modelo de liderança distribuída baseado nos princípios do Training Within Industry (TWI). A ideia é simples: se o produto muda, o conhecimento precisa fluir.
“Você não pode ter um chefe para cada microdecisão. A equipe tem que saber resolver.”
Para isso, foram instituídas três práticas:
- Instruções padrão simplificadas, acessíveis em telas na linha de produção.
- Mentores internos por célula de trabalho, com papel específico de formação contínua.
- Círculos de melhoria semanais, nos quais a equipe propõe ajustes nos processos a partir da experiência direta.
O resultado não foi apenas maior autonomia operacional. Também melhorou o moral da equipe, que agora sente que não só executa, mas participa de como responder à variabilidade do portfólio.
Essa abordagem combina TWI, Kaizen e elementos de células autônomas, criando um ecossistema que aprende a operar por dentro.
Policy Deployment iterativo: um foco que não se quebra
Quando tudo muda, é fácil perder o norte. Por isso, a equipe de planejamento e industrial da Alzamora Group Espanha trabalha com um modelo de Policy Deployment iterativo: definir grandes objetivos anuais, mas revisá-los em ciclos trimestrais para ajustá-los ao ambiente.
“Não renunciamos à estratégia, mas também não a usamos como desculpa para ignorar a realidade.”
Isso permite manter o alinhamento em meio à mudança. Por exemplo:
- Se uma categoria de produto ganha relevância, os indicadores são ajustados.
- Se a rotatividade de referências aumenta, o modelo de setup é redefinido.
- Se um novo cliente exige certificações específicas, o fluxo de documentação é reorganizado.
Assim, o sistema não apenas responde: também aprende.
Reflexão final
O planejamento operacional em ambientes variáveis exige uma nova forma de pensar a indústria. Já não se trata de controlar a mudança, mas de fazer da mudança uma competência estratégica. Na experiência de Josep M. Berga Ferrés Alzamora Group, isso não se alcança com ferramentas milagrosas, mas com um sistema que combina método, equipe e cultura.
A gestão industrial com alta rotatividade de produtos é um desafio real para muitas empresas de embalagens, alimentos, cosméticos ou dispositivos médicos. Mas também pode se tornar uma vantagem competitiva… se você aprender a operar na incerteza com estrutura.
🔁 O Keru é um podcast criado pela Globalita.io, no qual conversamos com quem lidera a indústria latino-americana por dentro.
E você… está planejando para produzir ou para se adaptar?
Executivo com mais de 30 anos de trajetória no Alzamora Group, onde atua como Diretor Geral e Comercial, liderando a estratégia e o crescimento da empresa no setor de embalagens. Reconhecido por sua visão inovadora, foi incluído na lista da Forbes Espanha dos 100 espanhóis mais criativos nos negócios.
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