O papel do gerente geral em contextos instáveis

Felipe Kopelowicz Kopelco Argentina compartilha 6 chaves de Lean, TOC e PDCA para liderar a indústria de manufatura têxtil em ambientes de crise.

Felipe Kopelowicz CEO/Gerente Geral · Kopelco · · 7 min
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🔍 Este artigo foi cocriado com Felipe Kopelowicz, CEO da KOPELCO Argentina (🇦🇷 Argentina).

🎙️ Este artigo foi inspirado no Episódio 01 do Keru Podcast

Keru Podcast é um podcast criado pela Globalita.io, em que conversamos com quem lidera a indústria latino-americana por dentro.

Problema / desafio: Gerenciar sob incerteza estrutural na indústria de manufatura argentina

Em ambientes industriais latino-americanos de alta complexidade, a figura do gerente geral se transforma: deixa de ser um designer estratégico para se tornar um operador sistêmico. Nesta conversa com Felipe Kopelowicz Kopelco Argentina, CEO da KOPELCO Argentina, aprofundamos como liderar uma empresa industrial em uma economia como a argentina, onde planejar com seis meses de antecedência se tornou inviável.

“Hoje não se trata de planejar a seis meses, mas de reconfigurar o mapa semanalmente sem perder a linha de base do negócio.”

A indústria de manufatura têxtil enfrenta hoje volatilidade de preços, inflação mensal de dois dígitos, custos trabalhistas indexados e demanda intermitente. Essa entropia faz com que os sistemas de gestão tradicionais fiquem obsoletos e empurra os gestores a operar em modo adaptativo constante.

No caso da KOPELCO Argentina, que atua no setor têxtil e de laboratórios (preservativos, insumos técnicos e produtos farmacêuticos), o planejamento não linear se torna um músculo organizacional, mais do que uma ferramenta técnica. A gestão industrial em crise passa a ser o terreno em que flexibilidade e disciplina devem coexistir.

Reflexões sobre esse problema: Entre a rigidez do passado e a agilidade estratégica

Felipe Kopelowicz Kopelco Argentina entende que o maior perigo para um CEO não é o contexto, mas sua reação emocional. Por isso, um dos conceitos-chave em sua gestão é o “backlog emocional”: essa inércia de decisões passadas que impede agir com objetividade em ambientes novos.

“O gerente geral tem que evitar operar com backlog emocional. Não pode arrastar expectativas do que funcionou no ano passado.”

A partir desse olhar, Kopelowicz aplica princípios do Kaizen (Masaaki Imai, Kaizen, 1986), não apenas como melhoria contínua, mas como uma forma de desaprender: detectar padrões que já não se aplicam e ter a humildade de mudá-los. Esse desaprendizado operacional, vital em ambientes de gestão industrial em crise, se transforma em vantagem competitiva.

Ao mesmo tempo, integra elementos da Teoria U (Otto Scharmer, Theory U, 2009), buscando “escutar” o sistema além dos dados. Isso implica estar presente, perceber os pontos de tensão operacional e permitir que as respostas surjam do contexto, não do PowerPoint.

Na indústria de manufatura têxtil, isso pode significar passar de decisões baseadas em margens históricas para lógicas de giro de capital, margem de contribuição ou estabilidade do cliente. A adaptabilidade não é um luxo, mas um pré-requisito operacional.

Além disso, Felipe reconhece que o gerente geral não pode perder a sensibilidade técnica. Sua experiência como CEO da KOPELCO Argentina o levou a perceber que muitas decisões erradas vêm da desconexão entre quem desenha a estratégia e quem enfrenta o chão de fábrica. Por isso, um de seus princípios é a liderança de proximidade operacional: não há decisões estratégicas sem dados concretos e observação direta.

Soluções e aplicações que podem ser implementadas na KOPELCO Argentina

🏭 Gemba Walk: Microgestão produtiva e contato direto com a operação

Metodologia aplicada: Gemba Walk

Autor: Taiichi Ohno

Livro: Toyota Production System (1988)

“Eu me tornei um microgerente funcional. Estar perto me permite detectar atritos que os painéis não mostram.”

Felipe transformou sua forma de trabalhar incorporando percursos diários pelas áreas críticas (produção, finanças, cobranças, compras). Não como controle, mas como fonte direta de sinais fracos que permitem priorizar. Essa prática redefine a microgestão como uma ferramenta de precisão contextual, fundamental em tempos de gestão industrial em crise.

📊 Redefinir KPIs com a lógica PDCA

Metodologia aplicada: PDCA Cycle

Autor: W. Edwards Deming

Livro: Out of the Crisis (1982)

“O segredo está em investir o tempo onde a empresa ganha mais grana.”

Os KPIs tradicionais perdem relevância diante de um ambiente que muda toda semana. Felipe aplica ciclos PDCA de avaliação curta para medir:

  • Margem de contribuição real por unidade
  • Velocidade de faturamento
  • Índice de cumprimento operacional por cliente

Isso permite gerir a partir de um painel dinâmico, em vez de um conjunto de métricas rígidas. A adaptabilidade dos indicadores se torna o espelho da adaptabilidade da empresa.

📦 Excesso de estoque estratégico como buffer operacional

Metodologia aplicada: Theory of Constraints (TOC)

Autor: Eliyahu Goldratt

Livro: The Goal (1984)

“Uma máquina parada é um buraco negro contábil. Prefiro perder por estoque do que por inatividade.”

Com insumos importados e fornecedores que não garantem a entrega, a KOPELCO Argentina mantém buffers definidos de insumos críticos. Isso reduz o risco de interrupções produtivas e preserva a continuidade do fluxo.

A abordagem rompe com o paradigma do just-in-time e adota uma lógica de buffer desenhada, inspirada na TOC. Na indústria de manufatura têxtil, em que os ciclos de demanda são erráticos, esse modelo amortece choques e garante o ritmo operacional.

🚀 Validação de novos negócios como MVPs industriais

Metodologia aplicada: Lean Startup

Autor: Eric Ries

Livro: The Lean Startup (2011)

“Se não soma ao sistema atual nem traz margem rápido, nem olho.”

Kopelowicz não aposta em diversificações ambiciosas. Valida novas unidades de negócio sob a lógica de MVP: baixo custo, teste rápido, uso de canais existentes.

Exemplo: quando avaliou entrar no ramo de artigos para festas, a análise mostrou que o negócio não escalava nem aproveitava capacidades existentes. Ele o descartou na fase exploratória. Essa mentalidade iterativa o mantém focado em oportunidades que maximizam o throughput organizacional.

🌀 Gestão tipo Kanban para tensão produtiva sem burocracia

Inspiração metodológica: Kanban

Autor: David J. Anderson

“Estou online 24/7 para destravar o que for preciso, mas não crio reuniões desnecessárias.”

Em vez de reuniões agendadas, Felipe adota a gestão visual: se há tensão real, ela é tratada. Se não, a equipe flui. Isso evita a perda de foco e reduz a carga operacional da equipe.

Essa metodologia é especialmente útil na gestão industrial em crise, em que a sincronização deve responder ao fluxo real, não a estruturas predefinidas. A flexibilidade tática se torna um fator de eficiência.

🔁 Recalibração estratégica contínua com lógica de restrições dinâmicas

Uma das inovações culturais mais profundas de Felipe Kopelowicz Kopelco Argentina é a incorporação de uma lógica de recalibração semanal do foco organizacional. Não se trata apenas de revisar o plano, mas de reinterpretar as restrições dinâmicas.

“Na KOPELCO Argentina, toda semana escolhemos um gargalo diferente para romper. E isso exige um nível de agilidade brutal.”

Isso se inspira no modelo Drum-Buffer-Rope da TOC, mas aplicado não a uma linha de produção, e sim a toda a organização. É uma gestão por restrições móveis, em que o objetivo é manter o throughput do sistema total acima do ótimo local.

Essa visão sistêmica dos gargalos permite que até áreas não operacionais (como jurídico ou cobranças) entrem no radar estratégico semanal se bloquearem fluxos-chave.


💡 Keru é um podcast criado pela Globalita.io, em que exploramos como se tomam decisões críticas na indústria latino-americana.

Reflexão final e convite a pensar além

“Liderar hoje é estar disponível em tempo real e não atrapalhar quando a equipe está alinhada.”

A figura do gerente geral industrial está mudando. Ele já não lidera da torre de controle, mas do terreno, da análise operacional e da facilitação de condições produtivas. Como um kaizen coach, não impõe o ritmo, mas sustenta o sistema para que ele não pare.

A indústria de manufatura têxtil não precisa de mais diagnósticos. Precisa de decisões sustentadas em princípios operacionais reais, adaptadas ao ambiente e com execução sistemática.

Então, a pergunta é:

Sua empresa está treinando seus líderes para operar sem certezas, mas com princípios claros?


🔁 Keru é um podcast criado pela Globalita.io, em que conversamos com quem lidera a indústria latino-americana por dentro.

Sobre Felipe Kopelowicz

É um líder industrial argentino com mais de 30 anos de trajetória na fabricação de componentes elétricos e eletrônicos. Foi CEO de uma empresa referência do setor, onde impulsionou inovação, digitalização e formação técnica. Hoje integra seu Conselho Diretor, promovendo governança e transição geracional.

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